José Gil: O apagamento da filosofia
O apagamento da Filosofia?
Visão, 12 de Outubro de 2006
José Gil
Filósofo
Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer. Depois do "lapso" de David Justino (mas, precisamente, "o lapso, Freud explica", como se diz vulgarmente), não se tocou mais na Filosofia. Aparentemente. Na realidade, várias medidas, directas e indirectas, foram surgindo: a Filosofia deixou de ser disciplina obrigatória no 12.º ano, tornando-se opcional. Agora, anuncia-se que ela já não é exigida para o acesso a qualquer curso do Ensino Superior, incluindo o de Filosofia!
Pergunta-se: nestas condições, quantos alunos escolherão Filosofia como opção no 12.º ano? O desaparecimento da disciplina no último ano do Secundário desenha-se como provável. Mais: no 11.º ano, o exame de Filosofia deixa de existir, não sendo necessária qualquer prova de aferição dessa disciplina. Continuando a ser matéria obrigatória nos 10.º e 11.º perde assim algo do seu prestígio como "disciplina fundamental", o que levará, sem dúvida, os alunos a dar-lhe menos importância do que tem. Por outro lado, criaram-se "cursos profissionalizantes" a partir do 10.º ano: nesse ramo da educação a Filosofia desaparece como "disciplina fundamental" (aparecendo, eventualmente, de forma residual, na Área de Integração que, com o Português, a Língua estrangeira e a Educação Física constituem o núcleo "sociocultural"). Para não falar nas pressões para criar disciplinas ou alargar o âmbito de outras (como a História) que viriam cobrir ou "integrar" temas filosóficos tradicionais.
Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina. E com ela, reduzir-se-ia o número de professores, e poupar-se-iam mais uns milhões no orçamento da Educação. A questão é saber se a minimização progressiva do ensino da Filosofia — porque outras medidas redutoras virão — ajuda ou não o processo de modernização da sociedade portuguesa. Para já, observemos que esta evolução no Secundário teria efeitos semelhantes na Universidade. Na docência e na investigação — o que seria desastroso.
Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensável. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da "sociedade do conhecimento". Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia — a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social.
Esta ideia, muito espalhada na mentalidade tecnicista de hoje, é apenas uma opinião errada. Faz parte de uma certa doxa já antiga, agora renovada na sociedade das novas tecnologias. A ideia é: a modernização não precisa da Filosofia, basta-nos uma sociedade coesa à volta de certos valores e ideais.
Paralelamente a esta doxa antifilosófica, desenvolveu-se na opinião pública europeia um interesse cada vez maior pela Filosofia: como sintomas, o sucesso de livros como O Mundo de Sofia, a proliferação dos caféphilo, dos congressos não universitários sobre Filosofia, a exigência explícita da reflexão filosófica na bioética, na estética, nas ciências da informação e da imagem. Para não falar nos incentivos à "introdução de mais Filosofia no ensino, a curto e longo prazo" (Relatório do Parlamento da Comunidade Francesa, 2000), ou na extraordinária importância que a Filosofia para (ou "com") crianças está a tornar no Ensino Básico de certos países (como a Espanha).
Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraordinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia alarga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design — atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania.
Seria um erro profundo crer que se pode fazer a economia da Filosofia no processo actual de transformação que o mundo vive — e em particular, em Portugal. "Sem a música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Extrapolando: "Sem a Filosofia, a vida seria um erro."
Visão, 12 de Outubro de 2006
José Gil
Filósofo
Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer. Depois do "lapso" de David Justino (mas, precisamente, "o lapso, Freud explica", como se diz vulgarmente), não se tocou mais na Filosofia. Aparentemente. Na realidade, várias medidas, directas e indirectas, foram surgindo: a Filosofia deixou de ser disciplina obrigatória no 12.º ano, tornando-se opcional. Agora, anuncia-se que ela já não é exigida para o acesso a qualquer curso do Ensino Superior, incluindo o de Filosofia!
Pergunta-se: nestas condições, quantos alunos escolherão Filosofia como opção no 12.º ano? O desaparecimento da disciplina no último ano do Secundário desenha-se como provável. Mais: no 11.º ano, o exame de Filosofia deixa de existir, não sendo necessária qualquer prova de aferição dessa disciplina. Continuando a ser matéria obrigatória nos 10.º e 11.º perde assim algo do seu prestígio como "disciplina fundamental", o que levará, sem dúvida, os alunos a dar-lhe menos importância do que tem. Por outro lado, criaram-se "cursos profissionalizantes" a partir do 10.º ano: nesse ramo da educação a Filosofia desaparece como "disciplina fundamental" (aparecendo, eventualmente, de forma residual, na Área de Integração que, com o Português, a Língua estrangeira e a Educação Física constituem o núcleo "sociocultural"). Para não falar nas pressões para criar disciplinas ou alargar o âmbito de outras (como a História) que viriam cobrir ou "integrar" temas filosóficos tradicionais.
Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina. E com ela, reduzir-se-ia o número de professores, e poupar-se-iam mais uns milhões no orçamento da Educação. A questão é saber se a minimização progressiva do ensino da Filosofia — porque outras medidas redutoras virão — ajuda ou não o processo de modernização da sociedade portuguesa. Para já, observemos que esta evolução no Secundário teria efeitos semelhantes na Universidade. Na docência e na investigação — o que seria desastroso.
Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensável. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da "sociedade do conhecimento". Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia — a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social.
Esta ideia, muito espalhada na mentalidade tecnicista de hoje, é apenas uma opinião errada. Faz parte de uma certa doxa já antiga, agora renovada na sociedade das novas tecnologias. A ideia é: a modernização não precisa da Filosofia, basta-nos uma sociedade coesa à volta de certos valores e ideais.
Paralelamente a esta doxa antifilosófica, desenvolveu-se na opinião pública europeia um interesse cada vez maior pela Filosofia: como sintomas, o sucesso de livros como O Mundo de Sofia, a proliferação dos caféphilo, dos congressos não universitários sobre Filosofia, a exigência explícita da reflexão filosófica na bioética, na estética, nas ciências da informação e da imagem. Para não falar nos incentivos à "introdução de mais Filosofia no ensino, a curto e longo prazo" (Relatório do Parlamento da Comunidade Francesa, 2000), ou na extraordinária importância que a Filosofia para (ou "com") crianças está a tornar no Ensino Básico de certos países (como a Espanha).
Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraordinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia alarga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design — atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania.
Seria um erro profundo crer que se pode fazer a economia da Filosofia no processo actual de transformação que o mundo vive — e em particular, em Portugal. "Sem a música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Extrapolando: "Sem a Filosofia, a vida seria um erro."

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