O Vírus
Diogo Pires Aurélio
De vez em quando, o alarme soa: imponderação, convicções erróneas ou circunstâncias menos felizes estão a inspirar a supressão ou, pelo menos, a redução da importância da filosofia no ensino secundário. No passado, sempre que tal aconteceu, a opinião avisada de algumas pessoas ergueu-se contra a ligeireza e conseguiu travar o desastre. Porém, o vírus persiste, aconchegado nas melhores das intenções e à boleia de alguns equívocos recorrentes sobre a modernização curricular. Volta não volta, ele aí está de novo, sorrateiro como é seu timbre, a fazer descambar para a simplificação a cabeça e a mão do decisor: para quê insistir numa disciplina que custa tanto como as outras, se ela nunca serviu para nada que se visse?
Imaginar que uma tal persistência decorre da ignorância não é exacto. Normalmente, o vírus propaga-se em meios com sofisticação bastante para lhe conferir relevo, pelo menos em termos administrativos. Não procura legitimar-se, é certo, mas também não faz segredo do seu desprezo por essa coisa da legitimação teórica. Do alto das suas certezas, ele abomina enredar-se em "teorias". Basta-lhe a eficácia a lidar com a dita prática. E se um saber não tem no horizonte um qualquer emprego, conclui que não há lugar para ele numa sociedade moderna. Que um ou outro diletante se entretenha com isso, vá que não vá. Mas onerar com semelhante fardo alunos do secundário, que aspiram a cursos com alguma utilidade, ultrapassa o alcance de um certo espírito reformista, para o qual não faz sentido futuros alunos de direito, antropologia, física ou sociologia, por exemplo, perderem tempo com prévias e inopinadas questões filosóficas.
Há neste raciocínio, para não dizer neste preconceito, uma confrangedora estreiteza de vistas, que revela não só um profundo desconhecimento do que seja a natureza de cada uma dessas disciplinas e de como no seu interior se processam as informações e o raciocínio, como também, e pior ainda, um equívoco acerca do que requerem a economia e a sociedade. O problema não é de simples reminiscências do passado, muito menos de uma qualquer subespécie de corporativismo: se a filosofia deixar de ensinar--se nas escolas, a comunidade científica no seu todo ficará mais pobre, a qualidade ressentir-se-á no mundo do trabalho e a sociedade ver-se-á afectada nesse centro vital que é a capacidade de questionar e de criticar.
in Diário de Notícias de 19 de Dezembro de 2006
De vez em quando, o alarme soa: imponderação, convicções erróneas ou circunstâncias menos felizes estão a inspirar a supressão ou, pelo menos, a redução da importância da filosofia no ensino secundário. No passado, sempre que tal aconteceu, a opinião avisada de algumas pessoas ergueu-se contra a ligeireza e conseguiu travar o desastre. Porém, o vírus persiste, aconchegado nas melhores das intenções e à boleia de alguns equívocos recorrentes sobre a modernização curricular. Volta não volta, ele aí está de novo, sorrateiro como é seu timbre, a fazer descambar para a simplificação a cabeça e a mão do decisor: para quê insistir numa disciplina que custa tanto como as outras, se ela nunca serviu para nada que se visse?
Imaginar que uma tal persistência decorre da ignorância não é exacto. Normalmente, o vírus propaga-se em meios com sofisticação bastante para lhe conferir relevo, pelo menos em termos administrativos. Não procura legitimar-se, é certo, mas também não faz segredo do seu desprezo por essa coisa da legitimação teórica. Do alto das suas certezas, ele abomina enredar-se em "teorias". Basta-lhe a eficácia a lidar com a dita prática. E se um saber não tem no horizonte um qualquer emprego, conclui que não há lugar para ele numa sociedade moderna. Que um ou outro diletante se entretenha com isso, vá que não vá. Mas onerar com semelhante fardo alunos do secundário, que aspiram a cursos com alguma utilidade, ultrapassa o alcance de um certo espírito reformista, para o qual não faz sentido futuros alunos de direito, antropologia, física ou sociologia, por exemplo, perderem tempo com prévias e inopinadas questões filosóficas.
Há neste raciocínio, para não dizer neste preconceito, uma confrangedora estreiteza de vistas, que revela não só um profundo desconhecimento do que seja a natureza de cada uma dessas disciplinas e de como no seu interior se processam as informações e o raciocínio, como também, e pior ainda, um equívoco acerca do que requerem a economia e a sociedade. O problema não é de simples reminiscências do passado, muito menos de uma qualquer subespécie de corporativismo: se a filosofia deixar de ensinar--se nas escolas, a comunidade científica no seu todo ficará mais pobre, a qualidade ressentir-se-á no mundo do trabalho e a sociedade ver-se-á afectada nesse centro vital que é a capacidade de questionar e de criticar.
in Diário de Notícias de 19 de Dezembro de 2006

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