O Fim da Filosofia
Nas suas ‘Illuminations’, em "uma manhã de bebedeira", Rimbaud anuncia a chegada do tempo dos assassinos ("voici le tempos des assassins"). A proclamação resulta de uma detecção do espírito dos tempos, acordados na ressaca do excesso de Véspera. Mas este tempo chegou ao ensino da filosofia em Portugal que pretende torná-la uma mera opção, portanto sem o vínculo de obrigatoriedade a que estão sujeitos os futuros estudantes de ciências humanas, incluindo, claro está, também, os juristas. Esta medida, que em Portugal corre sempre oficiosamente no silêncio dos corredores do poder, pode subitamente transformar-se em realidade. A aposta na técnica e na indústria é um programa do governo de Sócrates. Nada há a opor ao desenvolvimento técnico-industrial. Mas o que nos caracteriza a nós como humanos implica uma redução e circunscrição ao instrumental, ao equipamento, ao apetrecho e à ferramenta, por mais sofisticados que sejam? E um tal programa tem como consequência ferir de morte o contacto que os nossos jovens podem ter com os textos de filosofia. Pensar não se reduz a calcular, muito menos se os cortes financeiros a que todos estamos sujeitos em nome da extirpação da crise, implicar uma crise de identidade funda. A filosofia é um acontecimento universal de aproximação ao humano nas suas verdades essenciais, mas simultaneamente confronta-nos connosco no que de mais fundo somos. A transformação da Europa e do Mundo Ocidental numa domesticação global terá consequências devastadoras. As primeiras começam a sentir-se já na Europa. Mas o que será a Inglaterra sem o Aristóteles de Oxford e a filosofia analítica, a França sem Descartes e Pascal e a Alemanha sem Kant ou o idealismo alemão. O estudo da filosofia em Portugal será mortalmente ferido, pela lógica intrínseca a que as universidades de ciências humanas estão obrigadas: formar alunos para o mundo do trabalho. É óbvio que faz todo o sentido, primariamente. Mas sem filosofia no ensino secundário, basicamente a saída profissional para os estudantes de filosofia a nível superior, também as faculdades de filosofia das diversas universidades do país ficarão feridas de morte. Poderá isto acontecer no meu país? É este o tempo dos assassinos?
António de Castro Caeiro in “Expresso” de 6 de Janeiro de 2007

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