segunda-feira, janeiro 08, 2007

O Fim da Filosofia

Nas suas ‘Illuminations’, em "uma ma­nhã de bebedeira", Rimbaud anuncia a chegada do tempo dos assassi­nos ("voici le tempos des assas­sins"). A proclamação resulta de uma detecção do espírito dos tempos, acordados na res­saca do excesso de Véspera. Mas este tempo chegou ao en­sino da filosofia em Portugal que pretende torná-la uma me­ra opção, portanto sem o vín­culo de obrigatoriedade a que estão sujeitos os futuros estu­dantes de ciências humanas, incluindo, claro está, também, os juristas. Esta medida, que em Portugal corre sempre ofi­ciosamente no silêncio dos cor­redores do poder, pode subita­mente transformar-se em rea­lidade. A aposta na técnica e na indústria é um programa do governo de Sócrates. Nada há a opor ao desenvolvimento técnico-industrial. Mas o que nos caracteriza a nós como hu­manos implica uma redução e circunscrição ao instrumen­tal, ao equipamento, ao apetre­cho e à ferramenta, por mais sofisticados que sejam? E um tal programa tem como conse­quência ferir de morte o con­tacto que os nossos jovens po­dem ter com os textos de filo­sofia. Pensar não se reduz a calcular, muito menos se os cortes financeiros a que todos estamos sujeitos em nome da extirpação da crise, implicar uma crise de identidade fun­da. A filosofia é um aconteci­mento universal de aproxima­ção ao humano nas suas verda­des essenciais, mas simulta­neamente confronta-nos con­nosco no que de mais fundo so­mos. A transformação da Eu­ropa e do Mundo Ocidental nu­ma domesticação global terá consequências devastadoras. As primeiras começam a sen­tir-se já na Europa. Mas o que será a Inglaterra sem o Aristó­teles de Oxford e a filosofia analítica, a França sem Des­cartes e Pascal e a Alemanha sem Kant ou o idealismo ale­mão. O estudo da filosofia em Portugal será mortalmente fe­rido, pela lógica intrínseca a que as universidades de ciên­cias humanas estão obrigadas: formar alunos para o mundo do trabalho. É óbvio que faz todo o sentido, primariamen­te. Mas sem filosofia no ensino secundário, basicamente a saí­da profissional para os estu­dantes de filosofia a nível supe­rior, também as faculdades de filosofia das diversas universi­dades do país ficarão feridas de morte. Poderá isto aconte­cer no meu país? É este o tem­po dos assassinos?

António de Castro Caeiro in “Expresso” de 6 de Janeiro de 2007