terça-feira, junho 12, 2007

Asfixia e intolerância


Tenho andado, de há uns tempos a esta parte, a fazer um esforço no sentido de procurar entender porque razão os nossos actuais governantes são intolerantes, alérgicos a críticas e com alguma aversão ao espírito democrático.
E, considerando que há uma certa juventude nos actuais ocupantes do aparelho da governação, vim andando até ao tempo em que eram mais jovens e esforço-me por descobrir alguma razão assente em atitudes ou ideologias que a minha geração fomentasse ou alimentasse naquele tempo.
Talvez a euforia de 74 motivada pelo desaparecimento de uma ditadura de dezenas de anos tenha sido mal entendida por aqueles que nunca lutaram politicamente e que, em plena juventude, ouviam falar de democracia e passavam a viver num regime democrático. Mas era uma democracia emergente, frágil, e, provavelmente, não terão entendido que muito do que se fazia nesse tempo, às vezes sem muito espírito democrático, era em benefício de um sistema que nascia e em oposição a outro que se pretendia morto. Pretendia-se porque ainda não estava, de facto.
Sinceramente, não descubro outra.
Será que essa geração teve tempo para reflectir sobre o que é a democracia?

Houve um tempo em que na escola havia uma disciplina chamada de Introdução à Política e que, alguns defensores de bondosas ideias, resolveram anular dos currículos.
Pensei e manifestei por diversas vezes, a partir daí, que os alunos do secundário acabam o 12º ano analfabetos políticos, sem qualquer noção da diversidade dos regimes políticos, das diferentes estruturas do poder político e, mais grave ainda, sem qualquer noção dos direitos e deveres constitucionais, da estrutura do poder político em Portugal, da forma como se preenchem os lugares dos órgãos do poder e sem verdadeiras noções de democracia.
Assim, estas gerações cresceram e crescerão com a ideia de que a democracia é o poder da maioria e, como tal, há que o exercer desse modo, sem lugar às críticas, ao diálogo, ao debate.
Após as últimas eleições, em conversa com uma amiga que alcançou um lugar na Assembleia da República, falava eu deste analfabetismo e fiquei com a esperança que voltaríamos a ter alguma cadeira de formação política no Secundário.
Mas, pelo rumo que vemos, parece ser melhor, nesta navegação, que os passageiros continuem cegos…