quarta-feira, dezembro 19, 2007

O Complexo do "special one"

Se Sócrates fosse além do plástico, compreenderia que é falácia oca a abertura à comunidade e a participação dos pais


O outro “special one” foi à Assembleia da Re­pública tirar mais um coelho da cartola e já correm rios de tinta sobre a reforma da direcção das escolas. Bingo! Nada melhor para esquecer todas as malfeitorias duma política educativa desastrada que abrir nova frente de escaramuças, liderada pelo pai de todas as politicas, arauto de todas as novas oportunidades e saneador de todos os maus costumes nacionais.
O nosso sistema de ensino é um somatório sem nexo de sucessivas reformas casuísticas, desgarradas, que o tornaram uma fraude. As escolas, genericamente des­confortáveis “por fora”, frias no Inverno, quentes no Verão, degradadas, com poucos recursos, tornaram-se insustentáveis “por dentro”: professores amargurados, revoltados, com medos vários (de perderem o emprego, dos alunos, dos pais dos alunos e dos próprios colegas); alunos que não podem ser ensinados porque não querem aprender; iniciativas pedagógicas inúteis e redundantes (em vez de tornar actuantes as estruturas que não fun­cionam, mantêm-se as originais e sobrepõem-se-lhes outras, rotuladas com designações “modernas”, que mobilizam os mesmos actores que geraram o problema a resolver).
Sócrates não sabe modificar este caos. Ele e os três que sentou na 5 de Outubro pensam, como Taylor, que existe uma “the best way” para fazer as coisas e essa são eles que já a escolheram. É a essa luz que a proposta de Sócrates deve ser vista. O que ele procura é um conjunto de peões que executem ordens sem pestanejar e aceitem o jogo estatístico com que se mascara de talha dourada o que não passa de plástico foleiro. Mas o problema da Escola começa muito antes dela e jamais será resolvido no âmbi­to das suas estritas competências. Se Sócrates fosse além do plástico, compreenderia que é falácia oca a abertura à comunidade e a participação dos pais, com que anunciou o seu ( e de Santana Lopes e do PSD também) modelo de gestão das escolas. Os países onde essa participação se afir­mou e lhe servem de referência têm um desenvolvimento económico sólido, apresentam níveis de desigualdades sociais esbatidas e começaram a alfabetização universal dos cidadãos há um século. Portugal não foi por aí, infeliz­mente, e as diferenças aumentaram drasticamente desde que Sócrates está no poder. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres aumentaram escandalosamente (dois milhões e outros tantos que engrossariam esse número, não fora a assistência do Estado; professores e médicos a acorrerem ao Banco Alimentar contra a Fome; um desemprego que continua a crescer e uma precariedade de emprego nunca vista). Se a generalidade das famílias portuguesas não sabe nem pode prestar assistência aos filhos (uma forte causa do insucesso escolar), espera-se que funcione esse modelo de gestão das escolas? Se os pais não vão à escola para tratar das questões correntes da vida escolar dos filhos e reclamam que a mesma guarde as crianças 37 horas por se­mana (mais tempo do que os operários passam na fábrica) porque é essa a única forma de tornearem a desregulação actual dos horários de trabalho, acham que são esses pais que vão ter tempo e disponibilidade para participarem na gestão dos estabelecimentos de ensino?
A gestão das escolas e o modelo que se adopte para tal é importante. Mas no contexto actual e com estes timoneiros ao leme é um mero exercício para encontrar algumas marionetas que, a troco de pequenos poderes, se prestem a vergar ainda mais os colegas no pelourinho da tecnocracia.
Santana Castilho, Professor do ensino superior (in Público, 18/12/2007)

domingo, dezembro 16, 2007

Carta de um Professor (in Público, 16/12/2007)

A fraude - carta de Natal escolar
- 20071216
O ensino não vai bem e dele não se esperam melhorias. Dos resultados, o melhor é dizer que, se, em geral, não são francamente baixos, é porque são confeccionados. Um pequeno grão de uma longa fraude.O ensino não vai bem e dele não se esperam melhorias. Dos resultados, o melhor é dizer que, se, em geral, não são francamente baixos, é porque são confeccionados. Um pequeno grão de uma longa fraude. A mentira é o sintoma do sistema. E começa na cúpula.
Para chegar a esta conclusão, não tomei muitas notas nem delineei a estrutura de qualquer tratado: constata-se. Todos o sabem, embora não esteja nos livros. O espectáculo, bem montado, vincula-nos (quando não nos premeia) a todos, professores, pais, alunos: celebramos, é certo, o mais infeliz dos papéis, que é o de bobos estultos.
Actualmente, um estabelecimento de ensino - em geral, público - é um lugar desconfortável. Os docentes, à falta de melhor, destilam fel; os alunos, feita a ressalva devida, são rudes; os auxiliares vivem o ingrato dilema de vigiar professores e ser desautorizados por alunos. E o caos só não escandaliza porque é tacitamente aceite. Ninguém leva a mão à boca de espanto, pois já ninguém estranha.
Acresce que domínios curriculares como Formação Cívica (a bem dizer, uma obrigação de família), Estudo Acompanhado (na verdade, um pressuposto do estudo, que é nem mais do que verificar uma matéria) ou Área de Projecto (entenda-se trabalhos em grupo sob mote), cujo sentido talvez fosse possível admitir numa fase inicial da escolaridade (e, ainda assim, diluídos nas disciplinas vigentes de 1.º Ciclo - ler, escrever e contar continuam a ser objectivos - e tanto faz que se leia competências - essenciais), não passam de folclore dessa farsa a que se convencionou chamar reorganização curricular e gestão flexível do currículo. Não será preciso ter dois dedos de testa para perceber que as turmas de 1.º, 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico não comportam mais de 15 alunos (número arbitrário, mas razoável, a atender ao perfil do modelo actual de aluno).
A destituição do poder a que os professores têm sido sujeitos gerou um paradigma comportamental profundamente enraizado nos discentes, a transcender a ética humana: banalização do estudo, privando-o de importância e solenidade; incumprimento de tarefas; transformação da aprendizagem em divertimento ou entretenimento fútil; infantilização; boicote do sistema de ensino; desvalorização do esforço e sacrifício; iliteracia; desregramento, desrespeito e imbecilidade.
Recordo duas gratas figuras a quem ouvi chamar algumas coisas pelos nomes: Marçal Grilo e Lobo Antunes. Este último, se bem me lembro, aconselhava a que se tratasse os alunos como cães (entenda-se a metáfora, sem precipitações). Não acredito num ensino em que um professor não tenha, muitas vezes, de ser austero, e um aluno, não raro, de ser espartano. Por isso me espanta que o que dimana do Ministério da Educação contrarie tudo isto: erradicação da importância da Filosofia, rasura da literatura, despenalização das faltas, elaboração de planos redentores (Plano de Recuperação, de Acompanhamento, da Matemática, etc.), criação de inúmeras fraldas pedagógicas, elaboração de exames manifestamente caricaturais, invenção de "aulas" substitutas, e tanto mais. Os fautores do ministério não são incompetentes: são, antes, irreais. E irracionais.
Na sua nefasta acção, ajudam o aluno a ser esmoler e a pedinchar notas, convencem os encarregados de Educação a reivindicar o irrazoável e a encarnar um largo espectro de qualidades diabólicas e boçais e obrigam os professores a capitular na sua missão - se é ainda possível imaginar que o ensino assim tenha sido alguma vez considerado.
Nem tudo é deste modo, mas muito do que sabemos é-o. Vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar. Contudo, este silêncio é de ouro, e nem sequer os sindicatos perturbam as boas consciências (as greves de sexta sucedem-se como a expressão de um mundo sinistramente repetitivo). (...) Não nos rebelando contra o sistema - o que exigiria, no mínimo, uma paralisação de todos os sectores de ensino por tempo indeterminado -, só nos resta sermos as chocas da arena morna em que pactuamos. E a haver desculpa, só a de não darmos por nada.
Para coroar o fracasso deste modelo de ensino, a recente alteração no estatuto, que prevê a "titularidade" dos docentes, e a proposta de modificação na gestão, que antevê a figura do "director", têm um duplo imperativo: fazer dos professores galos de combate e amplificar a divisão no seio da docência. Nada mais hábil, vindo da parte da classe política, a quem só resta limpar as mãos, já lavadas por inúmeros Pilatos. O que se adivinha, contudo, não se revela muito animador para o futuro da Educação em Portugal.
A actual ministra, entretanto, balanceia-se entre uma rigorosa verve e uma logorreia falsa. Não é dela a culpa: muitos outros vieram antes e indicaram-lhe o caminho. Ela só teve de caminhar.
Nota - Ficou a jeito esta minha cabeça. Se ela rolasse, não seria sinal de ser incómoda. Seria antes a prova de que o Big Brother não é ficção literária.
António Jacinto Pascoal (professor)
Escola Secundária Fernando Assis Pacheco, Lisboa