O Complexo do "special one"
Se Sócrates fosse além do plástico, compreenderia que é falácia oca a abertura à comunidade e a participação dos pais
O outro “special one” foi à Assembleia da República tirar mais um coelho da cartola e já correm rios de tinta sobre a reforma da direcção das escolas. Bingo! Nada melhor para esquecer todas as malfeitorias duma política educativa desastrada que abrir nova frente de escaramuças, liderada pelo pai de todas as politicas, arauto de todas as novas oportunidades e saneador de todos os maus costumes nacionais.
O nosso sistema de ensino é um somatório sem nexo de sucessivas reformas casuísticas, desgarradas, que o tornaram uma fraude. As escolas, genericamente desconfortáveis “por fora”, frias no Inverno, quentes no Verão, degradadas, com poucos recursos, tornaram-se insustentáveis “por dentro”: professores amargurados, revoltados, com medos vários (de perderem o emprego, dos alunos, dos pais dos alunos e dos próprios colegas); alunos que não podem ser ensinados porque não querem aprender; iniciativas pedagógicas inúteis e redundantes (em vez de tornar actuantes as estruturas que não funcionam, mantêm-se as originais e sobrepõem-se-lhes outras, rotuladas com designações “modernas”, que mobilizam os mesmos actores que geraram o problema a resolver).
Sócrates não sabe modificar este caos. Ele e os três que sentou na 5 de Outubro pensam, como Taylor, que existe uma “the best way” para fazer as coisas e essa são eles que já a escolheram. É a essa luz que a proposta de Sócrates deve ser vista. O que ele procura é um conjunto de peões que executem ordens sem pestanejar e aceitem o jogo estatístico com que se mascara de talha dourada o que não passa de plástico foleiro. Mas o problema da Escola começa muito antes dela e jamais será resolvido no âmbito das suas estritas competências. Se Sócrates fosse além do plástico, compreenderia que é falácia oca a abertura à comunidade e a participação dos pais, com que anunciou o seu ( e de Santana Lopes e do PSD também) modelo de gestão das escolas. Os países onde essa participação se afirmou e lhe servem de referência têm um desenvolvimento económico sólido, apresentam níveis de desigualdades sociais esbatidas e começaram a alfabetização universal dos cidadãos há um século. Portugal não foi por aí, infelizmente, e as diferenças aumentaram drasticamente desde que Sócrates está no poder. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres aumentaram escandalosamente (dois milhões e outros tantos que engrossariam esse número, não fora a assistência do Estado; professores e médicos a acorrerem ao Banco Alimentar contra a Fome; um desemprego que continua a crescer e uma precariedade de emprego nunca vista). Se a generalidade das famílias portuguesas não sabe nem pode prestar assistência aos filhos (uma forte causa do insucesso escolar), espera-se que funcione esse modelo de gestão das escolas? Se os pais não vão à escola para tratar das questões correntes da vida escolar dos filhos e reclamam que a mesma guarde as crianças 37 horas por semana (mais tempo do que os operários passam na fábrica) porque é essa a única forma de tornearem a desregulação actual dos horários de trabalho, acham que são esses pais que vão ter tempo e disponibilidade para participarem na gestão dos estabelecimentos de ensino?
A gestão das escolas e o modelo que se adopte para tal é importante. Mas no contexto actual e com estes timoneiros ao leme é um mero exercício para encontrar algumas marionetas que, a troco de pequenos poderes, se prestem a vergar ainda mais os colegas no pelourinho da tecnocracia.
O outro “special one” foi à Assembleia da República tirar mais um coelho da cartola e já correm rios de tinta sobre a reforma da direcção das escolas. Bingo! Nada melhor para esquecer todas as malfeitorias duma política educativa desastrada que abrir nova frente de escaramuças, liderada pelo pai de todas as politicas, arauto de todas as novas oportunidades e saneador de todos os maus costumes nacionais.
O nosso sistema de ensino é um somatório sem nexo de sucessivas reformas casuísticas, desgarradas, que o tornaram uma fraude. As escolas, genericamente desconfortáveis “por fora”, frias no Inverno, quentes no Verão, degradadas, com poucos recursos, tornaram-se insustentáveis “por dentro”: professores amargurados, revoltados, com medos vários (de perderem o emprego, dos alunos, dos pais dos alunos e dos próprios colegas); alunos que não podem ser ensinados porque não querem aprender; iniciativas pedagógicas inúteis e redundantes (em vez de tornar actuantes as estruturas que não funcionam, mantêm-se as originais e sobrepõem-se-lhes outras, rotuladas com designações “modernas”, que mobilizam os mesmos actores que geraram o problema a resolver).
Sócrates não sabe modificar este caos. Ele e os três que sentou na 5 de Outubro pensam, como Taylor, que existe uma “the best way” para fazer as coisas e essa são eles que já a escolheram. É a essa luz que a proposta de Sócrates deve ser vista. O que ele procura é um conjunto de peões que executem ordens sem pestanejar e aceitem o jogo estatístico com que se mascara de talha dourada o que não passa de plástico foleiro. Mas o problema da Escola começa muito antes dela e jamais será resolvido no âmbito das suas estritas competências. Se Sócrates fosse além do plástico, compreenderia que é falácia oca a abertura à comunidade e a participação dos pais, com que anunciou o seu ( e de Santana Lopes e do PSD também) modelo de gestão das escolas. Os países onde essa participação se afirmou e lhe servem de referência têm um desenvolvimento económico sólido, apresentam níveis de desigualdades sociais esbatidas e começaram a alfabetização universal dos cidadãos há um século. Portugal não foi por aí, infelizmente, e as diferenças aumentaram drasticamente desde que Sócrates está no poder. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres aumentaram escandalosamente (dois milhões e outros tantos que engrossariam esse número, não fora a assistência do Estado; professores e médicos a acorrerem ao Banco Alimentar contra a Fome; um desemprego que continua a crescer e uma precariedade de emprego nunca vista). Se a generalidade das famílias portuguesas não sabe nem pode prestar assistência aos filhos (uma forte causa do insucesso escolar), espera-se que funcione esse modelo de gestão das escolas? Se os pais não vão à escola para tratar das questões correntes da vida escolar dos filhos e reclamam que a mesma guarde as crianças 37 horas por semana (mais tempo do que os operários passam na fábrica) porque é essa a única forma de tornearem a desregulação actual dos horários de trabalho, acham que são esses pais que vão ter tempo e disponibilidade para participarem na gestão dos estabelecimentos de ensino?
A gestão das escolas e o modelo que se adopte para tal é importante. Mas no contexto actual e com estes timoneiros ao leme é um mero exercício para encontrar algumas marionetas que, a troco de pequenos poderes, se prestem a vergar ainda mais os colegas no pelourinho da tecnocracia.
Santana Castilho, Professor do ensino superior (in Público, 18/12/2007)
