domingo, março 30, 2008

Finalmente, a Irlanda

A ideia generalizada de que a Irlanda é muito bonita leva-nos a pensar numa ilha de beleza invulgar, de ambientes natural e construído bem diferentes daqueles que nos rodeiam e esperamos encontrar à chegada algo de surpreendente.
Aconteceu-me o contrário.
Dublin surgiu-me como uma cidade cinzenta, como disse anteriormente, e nem mesmo à noite consegue um brilho atraente com a iluminação das fachadas de alguns prédios. É ainda incipiente, embora se sinta inovação na cidade; e, dizia-me uma irlandesa que de há dez anos para cá Dublin tornou-se irreconhecível pela transformação que sofreu.
Falta-lhe algo que provoque o encanto.
A região em torno da capital tem uma densidade populacional elevada, o que contrasta com o resto do país, sendo a costa, naturalmente, mais atractiva para viver.
A paisagem natural é bastante semelhante nas regiões que percorri, embora Connemara seja mais específica, essencialmente pelas elevações e pela miríade de lagos existentes, contrastando a aridez das montanhas com o verde dos vales e o azul celeste, (quando existe), reflectido nas águas e com uma actividade pastorícia que provoca uma certa tranquilidade. Tudo parece estar em harmonia.
Geologicamente, a região oeste, no subsolo, tem uma enorme bacia hidrográfica caracterizada por uma multiplicidade de canais e, no Inverno, alguma dessa água que percorre o subsolo emerge e forma lagos, (fig. ao lado), alguns de extensão considerável, fenómeno que é específico da Irlanda. Mas são lagos dispersos, perdidos nos campos, e só os estudiosos deste fenómeno conhecem os pormenores do seu funcionamento e que é, deveras, interessante.
Quem se dirigir à Irlanda em busca de uma paisagem invulgar, provavelmente terá uma decepção; a menos que tenha passado toda a sua vida num ambiente citadino e cosmopolita. As raízes que muitos americanos têm nesta ilha, levam-nos à procura do seu antigo espaço e deparam-se com algo inédito relativamente à América em que vivem. Talvez isso faça da Irlanda o mito da beleza que é.
Todavia, o que complementa a nossa visão da Irlanda é a sua história.
Não esquecer que a Irlanda foi uma colónia é reconhecer o seu crescimento como nação e somos levados a compreender muitos dos costumes e tradições bem como formas de pensar ainda existentes semelhantes a muitas que para nós estão em desuso.
Nota-se um movimento de transformação, com o tradicional ainda arreigado o que, para quem desconhecer a história irlandesa soa a estranho e incompreensível.
Isolada pela sua insularidade, a Irlanda é hoje espaço de chegada e de permanência de gente de vários países e continentes, o que, de algum modo, cria também nos seus naturais alguma estranheza. Poderia fazer-nos sorrir um irlandês de cerca de setenta anos quando nos diz que só há bem pouco tempo viu um negro de verdade.
Todavia, o mito económico em que se tornou a Irlanda começa a gerar os seus problemas e em determinadas zonas residenciais de Dublin surge o crime organizado e violento, com assassinatos à mistura, como aconteceu durante os dias em lá estive.
Percorrer a Irlanda de viatura, (apesar do incómodo que causam os primeiros momentos de condução pela esquerda), é a forma melhor de a conhecer. As estradas interiores são bastante exigentes em atenção porque são estreitas e têm um traçado muito curvilíneo. Em quase todas elas a velocidade máxima permitida é de 100 km/hora, mas ir a 80 já é risco elevado. Fiquei sem perceber se os irlandeses são optimistas ou se são cómicos… Todavia, com cuidado mínimo, consegue-se viajar tranquilamente.
Estou convicto, pelo menos nesta fase, que só com a dimensão histórica se torna mais compreensível a Irlanda que nos aparece quando a percorremos; a Irlanda que está para além da Guinness

Algumas fotos mais...

Um "animador" das ruas de Dublin
Uma profissão emergente.
É frequente ver-se pessoas empunhando cartazes com publicidade durante horas.
Uma manifestação em Dublin invocando as mulheres que tiveram papel preponderante na luta da independência.

Aspecto de DublinPainel sobre a Última Ceia numa parede em Dublin

Uma Guinness.
Se repararem, está um trevo desenhado na parte superior da espuma...
Muito talento!!!!
Se lhes perguntasse qual seria o conteúdo do copo, creio que me responderiam sem hesitação que era café...
Bem poderia ser; mas, por estranho que lhes pareça, era sopa. Sim, sopa; sopa de legumes!...
Aconteceu-me em Dalkey num mercado/restaurante de produtos biológicos.
Posteriormente bebi café, mas não foi servido no mesmo copo...
Por várias razões, tive a ideia de que Portugal poderia exportar a ASAE para a Irlanda; seria bom para nós e uma tragédia para os irlandeses...

sábado, março 29, 2008

Irlanda 8

O tempo fazia-se cada vez mais curto e o desejo de ver mais não diminuía. Havia ainda vários museus e monumentos para visitar, mas era impossível ir a todo o lado.
Optei pela National Gallery of Ireland, grande espaço onde se expõem obras de arte, essencialmente de pintura e de vários países, o que constitui uma amostra de arte diversificada e de pintores famosos.
Interessou-me sobretudo a pintura irlandesa e gostei muito de quadros que representavam paisagens naturais e humanas de épocas recuadas, dando a conhecer tipos e costumes sociais, levando-nos até outra Irlanda que desapareceu e desaparece.

Mas há também obras recentes, muitas delas representando figuras nacionais que, por uma coisa ou outra, se notabilizaram, como é o caso de uma quadro de Louis Le Brocquy retratando Bono, dos U2.
E, aproveitando as últimas horas, corri até Dalkey, uma terra na costa de Dublin, região que atrai a média e alta burguesia e onde se acolhem notáveis personalidades irlandesas, como a que atrás referi. É uma cidade acolhedora, tranquila e muito agradável na sua arquitectura.
Em Dalkey é obrigatório subir o morro que se situa sobranceiramente sobre o mar. A pé pode custar um pouco mas é compensador porque há muito verde nos acompanhando e do alto se desfruta de uma vista esplêndida sobre Dublin e sua baía, deixando-nos uma ideia precisa da geografia da área da capital.
O dia estava de sol e foi um passeio reconfortante para o final da estada.

De novo em Dublin, havia que fazer as despedidas no Temple, um pub de referência; é mais que um pub dentro do mesmo espaço, atendendo à multiplicidade de salas existentes. Mas já me tinha despedido das bebidas alcoólicas na noite anterior quando, contrariando mais uma vez o meu médico, (tenho esperança que ele não leia isto), resolvi experimentar o irish coffee. Estar na Irlanda e não provar a Guinness nem o Irish Coffee é como entrar num templo, não ver os santos nem rezar.
Foi o final de festa. Agora há que voltar à abstinência.
Espero que a água do meu sítio recomponha os humores hepáticos.
clicar na imagem para ampliar

sexta-feira, março 28, 2008

Irlanda 7

Depois de termos peregrinado no calvário de Belfast, e embora sabendo previamente que a história da Irlanda do Norte imbricava na da República da Irlanda, surpreendeu-nos que nos dias de hoje estivessem tão presentes no quotidiano das gentes daquela região os acontecimentos do início do séc. XX .
Nada do que surgiu em Belfast ou surge hoje é alheio aos acontecimentos da independência da Irlanda; por isso, sentimos necessidade de saber mais sobre a luta independentista.
Contra nós jogava o tempo, pelo que não sendo possível documentarmo-nos exaustivamente sobre essa realidade, teríamos que optar por uma sessão condensada, (melhor dito, zipada), que nos permitisse expandir posteriormente essa informação e relacioná-la com a que obtivemos em Belfast .
Por sugestão do Helder optámos por visitar Kilmainham Gaol.
Kilmainham é um edifício de finais do séc. XVIII, construído num descampado relativamente perto de Dublin, hoje situado bem dentro do perímetro urbano.
Foi prisão desde a sua construção até 1924.
A visita inicia-se no espaço que foi capela, onde ainda se mantém o altar que foi construído por um jovem de 16 anos, preso largos anos por ter roubado uma roda de carroça.
A par de alguns episódios que em nada abonam em prol da humanidade e até nos podem envergonhar por estarem eivados de selvajaria, o nosso guia foi-nos contando um pouco da história da independência porque ali estiveram e foram mortos os que primeiro a proclamaram e outros que se lhes seguiram.
Desde o séc. XII que os ingleses procuraram conquistar a ilha, mas só mais tarde tiveram o domínio pleno, sendo os irlandeses, na sua maioria católicos, espoliados de direitos, incluindo o da propriedade.
Com a fundação do Sinn Fein, partido que ainda hoje existe e tem um papel relevante na Irlanda do Norte, como é sabido, começa a ganhar corpo a ideia da independência e que se afirma objectivamente com a declaração de 1916. Todavia, esta proclamação, liderada por uma ala mais radical do Sinn Fein constituída por intelectuais, não tem um imediato apoio popular e todos os signatários da mesma são presos e executados, às vezes em circunstâncias com algum requinte de malvadez, e, na véspera da execução, eram levados para uma sala com lareira onde podiam saborear a ternura do calor em contraste com as condições cruentas de frio e humidade que as instalações continham.
Estas execuções, (evocadas em lápide numa das paredes de Kilmainham e honrados os heróis com a bandeira da República) a par de algumas perseguições e violência sobre outros suspeitos, levou a população a aderir à causa independentista e seguiram-se vários anos de guerra, e a constituição de um parlamento próprio com a maioria obtida pelo Sinn Fein nas eleições de 1918 fez nova proclamação de independência (1919), o que agravou a violência, vindo a ter cobro em 1921 com o Tratado de Londres, tratado esse que não se estendia a todo o território irlandês, deixando de fora seis condados, os que constituem hoje em dia, a Irlanda do Norte.
A escassa maioria de votos na aprovação parlamentar desse tratado, (64 a favor, 57 contra), as ideias independentistas e o sentimento de revolta contra o opressor, são hoje o fermento da luta que vigora na Irlanda do Norte e têm as suas raízes nesses tempos do início do séc. XX.
O radicalismo da linguagem, o sentimento de ódio, a consciência de espoliação e de exploração, o culto pelos heróis, pelos mártires, são realidades que existem hoje em Belfast e em toda a região norte, traduzidos objectivamente em monumentos, em cores e em símbolos que por todo o lado se encontram. É fácil notar o vermelho e azul pintados no chão, seguidos, pouco depois, pelo verde, o branco e o laranja.
As lutas da Irlanda do Norte são um problema mal resolvido do início do século passado. Resta a esperança que com o actual acordo a paz regresse; mas ainda há profundas cicatrizes na alma de muita gente.
Onde há mártires está bem vivo o martírio.
outras fotos de Kilmainham

quinta-feira, março 27, 2008

Irlanda 6

Já deu para perceber que regressei ao meu sítio… Afinal a gente também tem raízes.

Como disse anteriormente, era meu desejo ir a Belfast porque tinha curiosidade de ver pessoalmente o espaço onde acontecia a luta entre republicanos e unionistas, na Irlanda do Norte, pretendendo constatar se, de facto, as coisas seriam como eu as fui criando através da informação que recebi por todos estes anos e se hoje em dia se caminhava no sentido da paz.
De Dublin a Belfast faz-se bem a viagem.
Belfast é um pouco diferente de Dublin; mais britânica, de ruas mais abertas e até o clima nos pareceu melhor, mas isso deveu-se mais ao momento em que lá estivemos, de bastante sol. Mas tem-se uma sensação estranha porque sabendo que a Irlanda do Norte é território britânico, (o que é reforçado pelas mensagens no telemóvel: - Bem-vindo o Reino Unido…), frequentemente nos deparámos com a bandeira tricolor da República da Irlanda a flutuar em vários locais, embora a britânica estivesse hasteada nos edifícios oficiais.
A ideia da república emerge em cada esquina e a sede do Sinn Fein exibe a mesma bandeira.
Sabíamos que era possível fazer um tour pelos bairros católico e protestante, conhecer de perto a história das lutas e ver os locais marcados pela violência. Há táxis que fazem esse serviço.
Depois de passarmos pelo Turismo para recolhermos a informação necessária para obter tal serviço, caminhámos um pouco pela cidade e fomos ao local onde os táxis se encontram aparcados.
Dirigimo-nos ao primeiro deles mas o responsável informou-nos que embora fizesse tal serviço, agora estava impedido porque teria que transportar pessoas que aparecessem para certo local; uma espécie de transporte colectivo que recolhe quem pretender ir para determinado destino, sendo a despesa paga entre todos.
Vi serviço assim em Cuba, (Havana), e confesso que pensava ser único.
Seja como for, simpaticamente o motorista telefonou a um colega e ficámos a aguardar que chegasse.
Entrámos na viatura e pouco depois parámos; solicitou-nos que saíssemos e começou a explicar que naquele edifício, até há três anos atrás, se aquartelavam tropas britânicas e que, mesmo em frente e por ali próximo, os unionistas haviam assassinado impunemente, inclusive um colega dele que tranquilamente conduzia. Apontou-nos o bairro protestante e o muro que divide as duas facções.
Prosseguimos e deparámo-nos com os murais.
Nos murais, os católicos e independentistas, procuram representar a sua luta aproximando-a com outras lutas existentes no mundo. Deixo aqui algumas imagens.
Os que tombaram em defesa da independência da Irlanda do Norte são-nos apresentados como os Mártires e várias são as evocações que encontramos na cidade, como atestam as fotos inseridas, com destaque para Bobby Sands.
A greve de fome culminou na morte para alguns; outros morreram assassinados.

Um outro mural mostra-nos os que foram abatidos pelas balas do exército britânico e o nosso guia tomou um exemplar que nos exibiu e que manuseámos. São balas de plástico rígido, cilíndricas, com cerca de 15 cm de comprimento.


E continuou explicando e mostrando imagens, buracos de balas, locais que evocam lutas; até que chegámos ao cemitério dos católicos, de grande extensão, atravessado por ruas alcatroadas e que percorremos no táxi até ficarmos próximos da ala consagrada aos mártires da independência.
É uma ala com cerca de 20 metros, com placas tumulares de um lado e do outro e no extremo com o texto da declaração da independência da Irlanda, proclamada em 1916, que não vingou mas que deu lugar a um processo moroso e doloroso que culminou em 1922 num novo Estado, cujo território ficou constituído por 26 dos 32 condados, a actual República da Irlanda, constituindo os restantes 6 condados a Irlanda do Norte, submetida à coroa britânica. Por entre o texto surge uma flor branca de lírio que é assumida como símbolo, na medida em que tem as cores da bandeira republicana – verde, laranja e branco – e floresce na Páscoa, que foi o tempo da primeira proclamação da independência.
Ainda eram visíveis as marcas das comemorações deste ano; muitas flores com as cores da República estavam espalhadas pelas diferentes placas tumulares e é curioso notar que no extremo dessa galeria se ergue a bandeira republicana.
E o nosso orientador desfila novos pormenores sobre a luta e sobre assassinatos cometidos durante a realização de funerais. O enterro de mártires fazia surgir novos mártires.

Reflectindo sobre o que vimos e ouvimos, regressámos depois a Dublin, com um propósito para o dia seguinte.
A Irlanda começava a ter outra dimensão. Para nós, já não era apenas paisagem; a tradição e a inovação ganhavam outro sentido. E a União Europeia também se fazia diferente aos nossos olhos.

Irlanda 5

Na frente do estabelecimento predominavam as cores amarela e verde e, por cima da porta, com letras grandes e artísticas, anunciava-se Real Brasil.
Parei, por curiosidade.
No vidro da porta de entrada um papel informava que a forma legal de trazer algum familiar para a Irlanda é só para estudar. E, como estudante, podia trabalhar até 20 horas por semana e, nas férias, essas horas cresciam até 40. Para qualquer esclarecimento, indicava-se um contacto.
Logo depois da entrada do estabelecimento, do lado esquerdo, uma grande espaço, bem mobilado, dava-nos facilmente a certeza de ser um escritório para receber pessoas
No interior deparei-me com uma multiplicidade de coisas vindas de além-mar: - mandioca, coco, guaraná, diversos enlatados e ainda chás e produtos para temperos, para além de bandeiras e bandeirinhas tricolores daquele país da América do Sul.
À volta gente brasileira, comprando e conversando.
Dirigi-me à jovem que afanadamente procurava ordenar as coisas numa prateleira e perguntei-lhe se viviam ali muitos brasileiros.

- Sim, bastantes…
- …
- Você é irlandês?
- Não, português
- É, fala outra língua…
- …
- E donde você é?
- De Portugal.
- Mas fala português diferente…

Acho que ficou perturbada.
Que língua estranha tão semelhante, ?!... E na Irlanda!...

quarta-feira, março 26, 2008

Irlanda 4 (intervalo)

Continuarei a falar da Irlanda quando chegar a Portugal; a menos que a Ryanair me leve para outro destino. Se assim for, espero os vossos postes porque gostarei de vos ouvir e terei imenso tempo para ler.

domingo, março 23, 2008

Irlanda 3

O dia de hoje não foi tão de sol como o de ontem mas acabou sendo quase sem chuva e com temperatura mais amena.
Decidimos visitar a região de Connemara, uma enorme extensão de terreno mais ou menos plano, imensamente perfurado por lagos e rodeado de montanhas de quase nenhuma vegetação, não muito habitado mas que deve ser um espaço de pastorícia, tendo em conta o grande número de ovelhas que por ali pastavam.
A época do ano não deu para ver, mas adivinha-se que no Verão deve ser imensamente verde e constituirá uma das regiões mais bonitas da Irlanda.
Parámos em Clifden, uma cidade relativamente pequena e igual a tantas outras vistas. Regressámos depois pela costa e deparei-me com zonas bem cuidadas e muito habitadas, contrastando com Connemara.
Como manda a tradição católica, almocei cordeiro em Spiddle, por sinal bem servido, e continuámos pela costa até Galway, já referida, e voltámos ao sítio onde ficámos estes dias.
Em Athenry fizemos o nosso quartel-general. É uma cidade fundada no séc. XIII e ainda conserva alguns vestígios dessa época. O Castelo, a Porta Norte da muralha ou The Arch, e uma pequena extensão da muralha são motivos de visita.
Tal como em Gort, também aqui vivem alguns brasileiros. Consegui saber que a maior parte dos que residem nesta região terão vindo de Goiás, Brasília e de outras regiões do interior do Brasil. Há mercados com produtos alimentares vindos directamente de lá e a comunidade começa a criar raízes próprias.
Hoje é o último dia em Athenry; bem cedo regressarei a Dublin, onde penso ficar até voltar para Portugal, mantendo ainda a esperança de realizar uma visita a Belfast. Vamos ver se o tempo chega para isso.
Continuarei a contar-lhes.
Até amanhã.

Algumas fotos de Athenry

sábado, março 22, 2008

Irlanda 2

Hoje, Sábado, acordei cedo porque, como é habitual por estas paragens mais a norte, não há forma de prolongar a noite quando o sol começa a aparecer, uma vez que não existem persianas ou outros meios para ocultar a claridade.
O dia estava primaveril, talvez de Verão para estas paragens, apesar de um vento forte e cortante, sobretudo mais junto à costa. Mas isso não impedia que muitas senhoras usassem apenas uma t-shirt o que, em boa verdade, me arrepiava. Não fora o vento e hoje teríamos um dia perfeito de finais de Primavera como em Portugal.
Decidimos caminhar mais para oeste e descemos pela costa com o objectivo de visitarmos Cliffs of Moher.
Dia singular para mim porque me foi cometida a tarefa de levar a viatura que temos.
Nunca havia conduzido pela esquerda, mas tomei decididamente o volante, concentrei-me com atenção redobrada porque se ser conduzido nestas circunstâncias já perturba, muito mais isso acontece ao conduzir e mais exigente é a nossa responsabilidade.
Depois de ter batido algumas vezes com a mão direita na porta para mudar as velocidades e após algumas perturbações superadas por exigente concentração quando tinha que mudar de via, mais fácil se tornou a condução e assim regressámos ao nosso quartel-general sãos e salvos e sem sustos de relevo. Mas confesso que ao conduzir pela esquerda me faltou carro à direita e me sobrou à esquerda.
A viagem foi feita pela costa oeste e apareceu-nos uma Irlanda diferente, rural e simultaneamente marítima, com povoados marinheiros e espaço para muita gente passar dias de lazer. É a Irlanda das férias marítimas para os irlandeses, procurada para aquisição de casas com essa finalidade.
Ballyvaghan foi a primeira localidade onde parámos e ai tomei porridge – uma mistura tradicional de leite, flocos de aveia, uvas passas e mel. Bem saboroso.
Retomámos o caminho e voltámos a parar em Doolin, já bem perto das falésias, onde chegámos pouco depois do meio-dia.
Cliffs of Moher são, de facto, impressionantes e trouxeram-me à memória um filme que eu vi quando era jovem e que em português se intitula A Filha de Ryan.
Parte desse filme deve ter sido feita nos Cliffs, suponho eu, porque as imagens que guardo aproximam-se da paisagem que este local me proporcionou hoje.
Surpreendeu-me a organização criada em torno deste acidente natural para atracção turística e que é uma forte fonte de receita.
Depois de termos caminhado nesse espaço, continuámos viagem e descemos mais até Lehinch, pequena povoação junto a costa, onde almoçámos num pub tradicional. Surpresa das surpresas, para além de uma refeição bem servida, foi encontrar presos no tecto do pub dois cachecóis do Futebol Club do Porto, o que me encheu a alma de azul, como de certeza aconteceria com qualquer dragão. Não é assim, Victor?
Encetámos então a viagem de regresso e resolvemos descer mais um pouco para visitarmos Ennis, uma cidade com bastante vida e muito acolhedora, mas já longe do mar.
Chegámos quando o sol se despedia depois de nos ter dado um dia muito agradável. Mas, como sempre, quem tivesse apostado que no dia de hoje não chovia, teria perdido porque à noite, pela hora de jantar, chuviscou um pouco.
É uma aposta que nunca se deve aceitar na Irlanda...
Bem, o dia de amanhã vem aí e depois contarei.