25 de Abril
Hoje, 25 de Abril, aniversário da Revolução de 1974 que pôs termo a mais de 40 ano de ditadura e de fascismo.
Ontem, 24, estive num encontro com alunos da Escola de Secundária de Monserrate falando de alguns aspectos caracterizadores deste regime ditatorial.
Foi uma viagem ao interior do regime, forma mais adequada de o conhecer. Falámos da censura, das instituições paramilitares, da polícia política, dos tribunais plenários, do terror e da perseguição por causa das ideias perfilhadas. Famílias destroçadas… vidas roubadas… pessoas impossibilitadas de se realizarem como pessoas.
Um tempo de morte e de terror; um tempo de obscurantismo; um tempo que passou ao lado do tempo.
No final, tive oportunidade de evocar em homenagem todos os anónimos que, por um meio ou outro, contribuíram para o derrube da ditadura e, em particular, quis homenagear dois amigos, o João e o Guimarães.
O João levou-me, ainda muito jovem, a reuniões da oposição. Por ele tive ocasião de sentir o pensamento contrário à situação, de ouvir aqueles homens e mulheres dizerem a sua revolta quanto ao regime vigente. Ele ajudou-me a balizar ideias e a formar a minha consciência política.
O João ainda é visita de minha casa. Com uma doença irreversível, ainda mantém aquele humor que sempre o caracterizou e assim vai mostrando como gosta da vida.
O João impressiona-me e continua a ser uma referência para mim.
O Guimarães era funcionário dos correios em 1972. Vestiram-lhe uma farda e puseram-no no Serviço Postal Militar (SPM), serviço por onde passava toda a correspondência dos militares e para os militares que estavam na guerra do ultramar.
O Guimarães era um homem bem mais velho que eu quando esteve no local onde eu estava na colónia de Angola. Era um homem bom, crítico do sistema e tínhamos muitas conversas, os dois.
Por amabilidade dele consegui ler, em todos os meses desses anos, a Seara Nova, uma revista que, apesar da censura, conseguia trazer nos seus artigos uma lufada de inteligência e de saber. A Seara Nova foi um elemento muito importante na minha formação cívica.
Devo ao Guimarães os momentos agradáveis que ele me proporcionou naqueles dois anos de guerra, quer pelas conversas quer pela Seara Nova.
Esteja ele onde estiver, espero que ouça, que sinta este meu reconhecimento.
No final da intervenção de ontem, li para os presentes este meu texto:
Lembrar as formas de opressão e os métodos de um poder autocrático e ditatorial, mais do que um olhar para o passado, e para além de uma homenagem aos que lutaram pela liberdade, é participarmos da HISTÓRIA, da nossa História como Povo, como Pátria, e ao mesmo tempo tomar o sentido mais profundo do valor que é a LIBERDADE, fundamental para a realização de cada um de nós como PESSOA e de TODOS como NAÇÃO.
Não foi fácil viver no tempo desses 40 anos anteriores a Abril de 1974. Nunca será fácil, em qualquer tempo, viver sem LIBERDADE.
É preciso tomar consciência de que a LIBERDADE não é uma concessão, uma dádiva. Ela é da nossa NATUREZA HUMANA; é algo de nós próprios, de cada um. Por isso, quando nos privam da LIBERDADE, mutilam-nos. E para ninguém será agradável viver mutilado.
Muitos da minha geração e das que a antecederam sentem a alegria de deixar como legado a LIBERDADE nesta terra.
Não deixamos um País como desejaríamos; somos culpados por termos escolhido líderes incapazes de produzirem as transformações que seriam necessárias. Espero que as gerações mais novas e vindouras sejam mais capazes do que nós e consigam ser mais felizes neste País. Para isso há que EXERCER a LIBERDADE.
Cuidemos, então, da LIBERDADE
e sejam felizes!
Que sejam também felizes, leitores deste texto.
Ontem, 24, estive num encontro com alunos da Escola de Secundária de Monserrate falando de alguns aspectos caracterizadores deste regime ditatorial.
Foi uma viagem ao interior do regime, forma mais adequada de o conhecer. Falámos da censura, das instituições paramilitares, da polícia política, dos tribunais plenários, do terror e da perseguição por causa das ideias perfilhadas. Famílias destroçadas… vidas roubadas… pessoas impossibilitadas de se realizarem como pessoas.
Um tempo de morte e de terror; um tempo de obscurantismo; um tempo que passou ao lado do tempo.
No final, tive oportunidade de evocar em homenagem todos os anónimos que, por um meio ou outro, contribuíram para o derrube da ditadura e, em particular, quis homenagear dois amigos, o João e o Guimarães.
O João levou-me, ainda muito jovem, a reuniões da oposição. Por ele tive ocasião de sentir o pensamento contrário à situação, de ouvir aqueles homens e mulheres dizerem a sua revolta quanto ao regime vigente. Ele ajudou-me a balizar ideias e a formar a minha consciência política.
O João ainda é visita de minha casa. Com uma doença irreversível, ainda mantém aquele humor que sempre o caracterizou e assim vai mostrando como gosta da vida.
O João impressiona-me e continua a ser uma referência para mim.
O Guimarães era funcionário dos correios em 1972. Vestiram-lhe uma farda e puseram-no no Serviço Postal Militar (SPM), serviço por onde passava toda a correspondência dos militares e para os militares que estavam na guerra do ultramar.
O Guimarães era um homem bem mais velho que eu quando esteve no local onde eu estava na colónia de Angola. Era um homem bom, crítico do sistema e tínhamos muitas conversas, os dois.
Por amabilidade dele consegui ler, em todos os meses desses anos, a Seara Nova, uma revista que, apesar da censura, conseguia trazer nos seus artigos uma lufada de inteligência e de saber. A Seara Nova foi um elemento muito importante na minha formação cívica.
Devo ao Guimarães os momentos agradáveis que ele me proporcionou naqueles dois anos de guerra, quer pelas conversas quer pela Seara Nova.
Esteja ele onde estiver, espero que ouça, que sinta este meu reconhecimento.
No final da intervenção de ontem, li para os presentes este meu texto:
Lembrar as formas de opressão e os métodos de um poder autocrático e ditatorial, mais do que um olhar para o passado, e para além de uma homenagem aos que lutaram pela liberdade, é participarmos da HISTÓRIA, da nossa História como Povo, como Pátria, e ao mesmo tempo tomar o sentido mais profundo do valor que é a LIBERDADE, fundamental para a realização de cada um de nós como PESSOA e de TODOS como NAÇÃO.
Não foi fácil viver no tempo desses 40 anos anteriores a Abril de 1974. Nunca será fácil, em qualquer tempo, viver sem LIBERDADE.
É preciso tomar consciência de que a LIBERDADE não é uma concessão, uma dádiva. Ela é da nossa NATUREZA HUMANA; é algo de nós próprios, de cada um. Por isso, quando nos privam da LIBERDADE, mutilam-nos. E para ninguém será agradável viver mutilado.
Muitos da minha geração e das que a antecederam sentem a alegria de deixar como legado a LIBERDADE nesta terra.
Não deixamos um País como desejaríamos; somos culpados por termos escolhido líderes incapazes de produzirem as transformações que seriam necessárias. Espero que as gerações mais novas e vindouras sejam mais capazes do que nós e consigam ser mais felizes neste País. Para isso há que EXERCER a LIBERDADE.
Cuidemos, então, da LIBERDADE
e sejam felizes!
Que sejam também felizes, leitores deste texto.

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