No Centenário de Claude Lévi-Strauss
Projecto Verso e Universo
Comemoração do 1º centenário do nascimento de C. Lévi-Strauss
Biografia Claude Lévi-Strauss
Um dos grandes pensadores do século 20, Lévi-Strauss tornou-se conhecido em França onde os seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.
De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia a sua verdadeira paixão. No Brasil leccionou sociologia na Universidade de São Paulo, de
Exilado nos Estados Unidos durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse país nos 50. Em França, continuou a sua carreira académica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre, e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.
Lévi-Strauss jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. A sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda a parte surgiu nas viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de indígenas das Américas do Sul e Norte. Passou mais de metade da sua vida a estudar o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. “Estruturalismo”, diz Lévi-Strauss, “é a procura por harmonias inovadoras”.
As suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas linguísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objectos, etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Na obra O pensamento selvagem, diz que a língua é uma razão que tem as suas razões – e estas são desconhecidas pelo ser humano.
Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integra também muitas academias científicas, em especial europeias e norte-americanas.
Em 2005, aos 97 anos, recebeu o 17º Prémio Internacional Catalunha,
Actualmente mora em Paris.
Em Novembro de 2008, completou cem anos de vida.
Pensamento
O trabalho de Lévi-Strauss, pelo seu método e pelos objectos que escolheu, foi importante em Filosofia e Antropologia; nesta área forneceu os instrumentos teóricos para se utilizarem no terreno.
Lévi-Strauss quis compreender o espírito humano, compreender o homem no seu contexto natural (relação com a natureza), contexto social (relação com os outros) e no contexto das estruturas inconscientes do psiquismo (na relação consigo próprio e com o outro).
O inconsciente é o lugar onde se superam as antinomias, é o fundamento do pensamento simbólico, e manifesta-se pela função simbólica. O inconsciente aplica leis estruturais a elementos articulados, vindos da bioquímica, orgânicos, psíquicos e do social. Para Lévi-Strauss o inconsciente não é o refúgio das particularidades individuais, o depositário de uma história única, antes assume uma função simbólica, especificamente humana, que se exerce em todos os homens segundo as mesmas leis, e estas estão sempre fora de apreensões subjectivas, sendo o inconsciente que torna possível a comunicação.
Lévi-Strauss mostra que ao nível dos dados observados existe uma lógica de organização, por vezes inconscinte, uma capacidade de organizar e classificar.
Na sua obra encontra-se uma das críticas mais radicais ao racismo e etnocentrismo, (atitudes próprias das culturas ocidentais), expressa na abordagem que faz do pensamento dos povos agrafos; na não distinção dos princípios subjacentes às atitudes mais naturais e originárias e no reconhecimento dos valores e dos costumes de diferentes povos e culturas. Na primeira obra dedica-se ao estudo das relaçõe entre diversos sistemas de parentesco através da análise estrutural nomeadamente as relações de parentesco, onde demonstra a eficácia do seu método estrutural. As relações de parentesco representam a base primitiva da sociedade tal como os fenómenos da linguagem dispõe das mesmas possibilidades de análise científica, com importância fundamental para a proibição do incesto, regra que marca a passagem da natureza à cultura.
Neste estudo interessa-se não tanto por aquilo que fazem as pessoas, mas por aquilo em que elas acreditam; tanto se interessa pelos aspectos regrados da vida social como por aqueles que manifestam uma certa espontaniedade. Para ele «há na sociedade, na cultura, certos modos de pensar que dependem de mecanismos essenciais da actividade humana».
Lévi-Strauss interessa-se sobretudo por compreender a dinâmica do espírito humano, mostrando através da análise de mitos, costumes, tradições, que por detrás de qualquer comportamento colectivo existe uma lógica cujos princípios encontram fundamento na actividade inconsciente do espírito. Ensina-nos a pensar diferentes modos de relação e de organização social.
Foi influenciado por Freud (Psicanálise), Marx (a análise da sociedade), Jakobson, Saussure (linguística estrutural). Com Freud aprendeu que «mesmo os fenómenos na aparência mais ilógicos podiam ser justificados pela análie racional». Em Marx encontrou a ideia fundamental e que não se pode compreender a cabeça dos homens sem a relacionar com as condições da sua existência prática.
A Franz Boas mestre em antropologia americana deve certas ideias fundamentais, pois Boas foi um dos primeros a dizer que «as leis da linguagem funcionam ao nível do incosciente, para lá do controlo dos sujeitos falantes».
Do Surrealismo ficou seduzido com a temática do irracional.
Por outro lado, afirma-se como um Kantiano vulgar e um estruturalista de nascimento.
Foi ainda buscar à linguística os princípios do seu método: - «nos sistemas estudados pelos etnólogos como em linguística, os elementos constitutivos não têm significação intrínseca: o seu sentido é de posição» e «os termos nunca têm significação intrínseca. A sua significação é de posição, por um lado, em função da história e do contexto cultural e, por outro, da estrutura do sistema em que são chamados a figurar, a significação é determinada por relações lógicas».
Método estrutural
Aplicado às relações de parentesco. O sistema de parentesco é equivalente ao sistema da língua. Ambos são linguagem, um sistema simbólico e um facto social total, através de um sistema de denominações (mãe, pai, filho) e de um sistema de atitudes.
Influência
A influência de uma obra e de um pensamento mede-se pelas investigações que estimula; pelos trabalhos que suscita; pelos ideais que nascem; pela riqueza das reacções que provoca e pelas carreiras que determina.
A recepção é universal e durável.
Em França, criou uma grande parte das instituições que ainda hoje dão vida à antropologia, exercendo uma influência muito grande nas carreiras de três gerações de antropólogos. Na época, as teses do Pensamento Selvagem e Antropologia Estrutural dominavam o mundo intelectual e muita gente marcou a sua posição em relação a Lévi-Strauss.
Em Inglaterra, a sua influência foi particularmente sensível. Edmund Leach, entre outros, oscilou entre a fascinação e a reticência.
Nos Estados Unidos os antropólogos ficaram mais distantes.
Em Espanha e Portugal, as circunstâncias políticas fazem com que a obra de Lévi-Strauss tenha sido acolhida de abraços abertos. Foi acolhido como o representante de uma modernidade que se esperava há muito tempo.
O Brasil, foi onde realizou trabalho de campo nomeadamente na Amazónia e Mato Grosso junto das tribos Bororo, Caduveo e Nambikwara.
Nestes últimos anos os seus livros foram traduzidos e editados na China.
Houve ainda uma forma de recepção menos visível mas fundamental, Lévi-Strauss conheceu o sucesso popular, nomeadamente com a sua obra Tristes Trópicos.
“O antropólogo é o astrónomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador.”
Antropologia estrutural, 1967
Comemoração na Escola Secundária de Monserrate
O projecto Verso e Universo e o Grupo de Filosofia dedicaram o dia 28 de Novembro de 2008 à comemoração do 1º centenário do nascimento de Claude Lévi-Straus.
Quisemos homenagear Lévi-Strauss e ao mesmo tempo dar a conhecer a alguns, porventura, e lembrar a outros a vida e obra do pensador que fez cem anos, o que por si só já é admirável, mais ainda se o reconhecermos como talvez o antropólogo mais eminente da segunda metade do séc. XX, na compreensão do que é comum a todos os homens e a todas as culturas: a relação e a organização social do Homem.
Esta homenagem desenvolveu-se ao longo do dia em diferentes momentos: exposição na Biblioteca das prinicipais obras do autor, afixação de uma original biografia de Lévi-Strauss, exposta na escola no percurso do átrio de entrada até à Biblioteca e às 20.30h na Biblioteca, uma conversa sobre Lévi-Strauss, orientada pela professora Sofia Maciel e especialmente dirigida aos alunos do Ensino Recorrente, RVC e curso EFA - Novas Oportunidades.
A conversa sobre a vida e obra de Lévi-Strauss permitiu o conhecimento aos alunos de um pensador que tem como principal objectivo o conhecimento do homem no sentido mais profundo: na relação consigo próprio e com o mundo natural e social. Aos professores interessou, particularmente, a partilha e o desenvolvimento do discurso em torno da Filosofia e da Linguagem. Os alunos do curso EFA, mais uma vez se aperceberam da importância de uma experiência de vida e de um pensamento que se caracteriza essencialmente pela luta contra atitudes discriminatórias e xenófobas, e se manifesta a favor do diálogo intercultural. Notou-se ainda o reconhecimento, por parte dos participantes, da Lógica subjacente à experiência concreta do dia-a-dia expressa no pensamento do filósofo. Constataram que as coisas simples da vida se revestem de uma organização lógica idêntica àquela que subjaz à complexidade da ciência.
Cabe ainda dizer que o público envolveu-se de forma activa durante a comemoração, demonstrando interesse e prazer em ouvir falar sobre este grande pensador, participando com perguntas e comentários.


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