sexta-feira, março 28, 2008

Irlanda 7

Depois de termos peregrinado no calvário de Belfast, e embora sabendo previamente que a história da Irlanda do Norte imbricava na da República da Irlanda, surpreendeu-nos que nos dias de hoje estivessem tão presentes no quotidiano das gentes daquela região os acontecimentos do início do séc. XX .
Nada do que surgiu em Belfast ou surge hoje é alheio aos acontecimentos da independência da Irlanda; por isso, sentimos necessidade de saber mais sobre a luta independentista.
Contra nós jogava o tempo, pelo que não sendo possível documentarmo-nos exaustivamente sobre essa realidade, teríamos que optar por uma sessão condensada, (melhor dito, zipada), que nos permitisse expandir posteriormente essa informação e relacioná-la com a que obtivemos em Belfast .
Por sugestão do Helder optámos por visitar Kilmainham Gaol.
Kilmainham é um edifício de finais do séc. XVIII, construído num descampado relativamente perto de Dublin, hoje situado bem dentro do perímetro urbano.
Foi prisão desde a sua construção até 1924.
A visita inicia-se no espaço que foi capela, onde ainda se mantém o altar que foi construído por um jovem de 16 anos, preso largos anos por ter roubado uma roda de carroça.
A par de alguns episódios que em nada abonam em prol da humanidade e até nos podem envergonhar por estarem eivados de selvajaria, o nosso guia foi-nos contando um pouco da história da independência porque ali estiveram e foram mortos os que primeiro a proclamaram e outros que se lhes seguiram.
Desde o séc. XII que os ingleses procuraram conquistar a ilha, mas só mais tarde tiveram o domínio pleno, sendo os irlandeses, na sua maioria católicos, espoliados de direitos, incluindo o da propriedade.
Com a fundação do Sinn Fein, partido que ainda hoje existe e tem um papel relevante na Irlanda do Norte, como é sabido, começa a ganhar corpo a ideia da independência e que se afirma objectivamente com a declaração de 1916. Todavia, esta proclamação, liderada por uma ala mais radical do Sinn Fein constituída por intelectuais, não tem um imediato apoio popular e todos os signatários da mesma são presos e executados, às vezes em circunstâncias com algum requinte de malvadez, e, na véspera da execução, eram levados para uma sala com lareira onde podiam saborear a ternura do calor em contraste com as condições cruentas de frio e humidade que as instalações continham.
Estas execuções, (evocadas em lápide numa das paredes de Kilmainham e honrados os heróis com a bandeira da República) a par de algumas perseguições e violência sobre outros suspeitos, levou a população a aderir à causa independentista e seguiram-se vários anos de guerra, e a constituição de um parlamento próprio com a maioria obtida pelo Sinn Fein nas eleições de 1918 fez nova proclamação de independência (1919), o que agravou a violência, vindo a ter cobro em 1921 com o Tratado de Londres, tratado esse que não se estendia a todo o território irlandês, deixando de fora seis condados, os que constituem hoje em dia, a Irlanda do Norte.
A escassa maioria de votos na aprovação parlamentar desse tratado, (64 a favor, 57 contra), as ideias independentistas e o sentimento de revolta contra o opressor, são hoje o fermento da luta que vigora na Irlanda do Norte e têm as suas raízes nesses tempos do início do séc. XX.
O radicalismo da linguagem, o sentimento de ódio, a consciência de espoliação e de exploração, o culto pelos heróis, pelos mártires, são realidades que existem hoje em Belfast e em toda a região norte, traduzidos objectivamente em monumentos, em cores e em símbolos que por todo o lado se encontram. É fácil notar o vermelho e azul pintados no chão, seguidos, pouco depois, pelo verde, o branco e o laranja.
As lutas da Irlanda do Norte são um problema mal resolvido do início do século passado. Resta a esperança que com o actual acordo a paz regresse; mas ainda há profundas cicatrizes na alma de muita gente.
Onde há mártires está bem vivo o martírio.
outras fotos de Kilmainham